21 de nov de 2007

A Poesia Negra

Solano Trindade, o poeta do povo


LINDA HOMENAGEM essa que a Vickye prestou à África no Dia da Consciência Negra. Assino embaixo de tudo que foi colocado, afinal de contas sou um defensor ardoroso do fim do preconceito racial (e do quindim da vó dela), e reconheço o tempero, o molejo e o colorido que os negros (afro-descendentes o escambau!) trouxeram à nossa cultura. Meu único senão fica por conta dos parabéns, que passeou por gramados, autódromos, palanques e palcos e não citou nenhum poeta negro.


Sendo assim, aproveito a semana comemorativa para homenagear três grandes poetas brasileiros, que, além de talentosos, tinham ainda que dividir seus versos com outras profissões, fazendo da poesia o seu hobby mais precioso. As obras de Luís Gama, João da Cruz e Souza e Solano Trindade foram e sempre serão lembradas 'como que escritas com brasas na pele escura de todo negro, mesmo que não queiram, e mesmo que não saibam'.


João da Cruz e Souza, o Cisne Negro


O catarinense João da Cruz e Souza é considerado um dos maiores poetas do simbolismo do mundo. Advogado e escritor, viveu apenas 37 anos (1861-1898), mas atingiu tal maturidade e ritmo que é considerado o pai do Simbolismo no Brasil.

O que você é capaz de fazer com um violão? João faz isso:


Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua.
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre remagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas no sonho,
Almas que se abismaram no mistério.

(poema Violões que choram)


Solano Trindade, o Poeta do povo

Além de poeta, o recifense Solano Trindade era pintor, teatrólogo, ator e folclorista. É reconhecido como o poeta da resistência negra, sobre a qual dedicou a maioria de sua obra. A locomotiva aí embaixo virou até música da banda Secos & Molhados, espia só:


Trem sujo da Leopoldina

correndo correndo

pra dizer

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Piiiii!

Estação de Caxias de novo

a dizer de novo

a correr

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Vigário Geral

Lucas

Cordovil

Brás de Pina

Penha Circular

Estação da Penha

Olaria

Ramos

Bom Sucesso

Carlos Chagas

Triagem,

Mauá

Trem sujo da Leopoldina

correndo correndo

parece dizer

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Tantas caras tristes

querendo chegar

em algum destino

em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina

correndo correndo

parece dizer

tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

Só nas estações

quando vai parando lentamente

começa a dizer

se tem gente com fome

dá de comer

se tem gente com fome

dá de comer

se tem gente com fome

dá de comer

Mas o freio do ar

todo autoritário

manda o trem calar

Psiuuuuuuuuuu!

(poema Tem gente com fome)

Luís Gama, o Amigo de todos

O baiano Luís Gama, poeta e advogado, fez do exercício da poesia motivo para tirar bons sarros dos costumes e figuras da época, e da advocacia uma oportunidade para defender e libertar escravos ilegais. Juntou-se a Rui Barbosa, Castro Alves e Joaquim Nabuco na luta pelo fim da escravidão, e conseguiu sozinho libertar mais de mil cativos. Senso de humor era com ele mesmo:

É renga, magricela e presumida,
Com pele de muxiba engrouvinhada;
O corpo de sumaca desarmada,
A cara de muafa mal cosida;

A perna de forquilha retorcida,
Os ombros de cangalha um tanto usada;
A boca, de ratões grata morada,
Maçante na conversa em mal sofrida;

Senhora de um leproso cão rafeiro,
Que, querendo passar por mocetona,
Se besunta com sebo de carneiro;

Vestida é saracura de japona,
De feia catadura, e de mau cheiro,
Eis a choca perua da Amazona.

(poema Retrato)



4 comentários:

Carlton disse...

E o Mário Quintana????????

Marion disse...

O Quintana não era negro, ô mongol!!!

Carlton disse...

Aaaaaaaaaaaaahhhh ta!

Carlton disse...

E o Machado de Assis????

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