07/02/2010

Vale a pena ler de novo



QUANDO COMPÔS 'CHANGES', o lendário rapper 2pac Shakur fez uma denúncia da perseguição e preconceito contra os negros, que com o passar do tempo pode até ter ganhado uma cosmética, mas segue inerte nos becos e recônditos americanos. 

Em composição diametralmente oposta, o inclassificável Luis Fernando Veríssimo escreveu 'Mudanças', texto que mostra o quanto nossa sociedade mudou nos últimos 20 anos, ganhando em praticidade e perdendo em magia. 

Consciente ou inconscientemente estamos mudando, afinal o mundo por nós criado exige mudanças contínuas: normalmente rápidas, por vezes drásticas. Mas será que elas estão nos conduzindo a uma vida melhor?



Mudanças*
(L.F. Veríssmo)


E tudo mudou...

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss
O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib, que virou silicone...


A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
'Problemas de moça' viraram TPM
Confete virou MM
A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou musse
Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal...


Ninguém mais vê...
Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service
A tristeza, depressão
O espaguete virou miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão
O que era praça virou shopping...

A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD
A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email...


O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do 'não' não se tem medo
O break virou street
O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também
O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico...


Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou Counter Strike
Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato
Chico sumiu da FM e TV...


Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita ?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...


A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência esta coisa maldita!
A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...
.
.. de tudo.
Inclusive de notar essas diferenças.




* Texto enviado pela tia Stella.

 

02/02/2010

Nono e o pastel mágico


O NONO, JÁ COM UM PÉ na cova e outro na casca de banana, foi hospitalizado às pressas. Filhos, netos e bisnetos vieram de todos os cantos do mundo para acompanhar os últimos momentos do velho carcamano.

Como já estava nas últimas, os médicos deixaram que os parentes o levassem do hospital, para cumprir seu último desejo: o de morrer em casa, ao lado de seus entes queridos.

Acomodado no quarto, as visitas foram se revezando para tentar consolar e dar conforto ao Nono em seu momento derradeiro. De repente, o velho sentiu um aroma maravilhoso que vinha da cozinha. Era Nona, tirando uma fornada de pastiére especialle de grani italiani. Madonna mia!!!

As narinas do Nono inflaram, seus olhos brilharam e num toque de mágica o velho se reanimou. Agora apoiado na almofada, ele se virou desajeitadamente para o bisneto sardento que estava ao lado da cama jogando minigame:

- Piccolo mio, faz un favor pro Nono aqüi, ã? Va à cojina e pede um pedaxo de quello pastiére pra Nona.

O guri foi e voltou num pé só, de mãos abanando.

- Ma quedê o pastiére, cazzo?

- A Nona disse que no!

- Ma per que no, porca miséééériaaa?? Ma que vecchia desgraciata! Que qüesta putana falô, ragazzi?

- A Nona ficô brava e avisô que non é pra comer acora, vô. Quellos pastel san tutti pro velório!!!



*Anedota enviada pelo tio Beto.


01/02/2010

BJ Amazing Songs!



TÁ, VAI, A FOTINHO TÁ meio blasé. Mas de monótono o som dos caras do Hockey não tem nem um acorde sequer. Com menos de 1000 dias de vida, a banda (indie?) de Portland segue à risca os passos do Strokes. Adicione aí uma pitada de LCD Soundsystem, um leve toque de Blur, um vocalista com síndrome de Bob Dylan e você chega a isso aqui, ó:







31/01/2010

O contador de histórias


SE VOCÊ PROCURAR POR IMAGENS de J.D. Salinger em qualquer lugar, irá encontrar praticamente variações dessa aí em riba. Pretibranca, gravata, perfil. Falta de expressão, vida, carisma.

Pois a foto - e a personalidade reclusa do escritor, que vivia em um semi-confinamento - são justamente o contrário de suas (poucas) obras. Salinger se notabilizou por um estilo eclético, humor ácido, ironia fina, textos ricos, palavras fulminantes, personagens exalando vida e personalidade própria.

Seu maior hit, 'O Apanhador no Campo de Centeio' (60 milhões de livros vendidos), é um clássico atemporal. O anti-herói Holden Caulfield representou, representa e sempre representará os desejos de liberdade e independência dos meninos e meninas de todas as idades ávidos por uma revolução (interna ou externa).

Mas foi no mundo dos contos que o escritor atingiu a perfeição. Utilizando diversos membros da nada comum família Glass (que teve uma tentativa pífia de representação nas telonas no "Os excêntricos Tenembauns"), Salinger conseguiu em pouco mais que uma centena de páginas fazer o que milhões de escritores espalhados pelo mundo jamais conseguirão: criar histórias tão boas que parece que elas sempre existiram, tamanha sua naturalidade e percepção do outro.

"Um dia ideal para os peixes-banana", "Pouco antes da guerra com os esquimós", "O Gargalhada", "Para Esmé, com amor e sordidez", "Lindos lábios e verdes meus olhos", "Teddy". Todos eles se encontram na coletânea Nove Estórias, livreto que vale por uma obra completa.

Semana passada, aos 91 anos, o contador de histórias Jerome David subiu. Mas sua mini-obra (que conta ainda com outros dois ótimos livros que deixarei para você pesquisar) ficou para inspirar milhões de escritores e aspirantes da liberdade, como seu famoso apanhador.


"É engraçado. A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo."

(Holden Caufman)




 

27/01/2010

Ursinho Pooh? Pfffff!

TAÍ UMA COISA LEGAL da diversidade. Uns adotam cachorros, outros preferem gatos. Alguns curtem tartarugas, periquitos, chinchilas, hamsters, furões. E outros criam, bem... ursos.


 
 



 



 





Esse simpático rapaz encontrou dois filhotes de urso castanho ao lado da mãe, morta no Alasca. Um dos filhotes sobreviveu, cresceu (3 metros e 350 quilinhos) e se tornou um brother para todas as horas. As fotos originais e comentários (em russo) você encontra aqui, ó.



* Imagens enviadas pela pentelha Ana Maria Pitinha





26/01/2010

Amor com Escalas


O QUE FAZ UM FILME ser especial? A sintonia do elenco, a competência da direção, a subversão do roteiro, o compasso e descompasso da trilha sonora?

Na minha opinião todas as alternativas anteriores, acrescidas de outra fundamental: a presença de um ator/atriz que roube a cena. Nisso, 'Up in the Air' (traduzido por aqui bisonhamente como 'Amor sem Escalas') está muito bem servido. Além das presenças brilhantes da veterana Vera Farmiga (linda como nunca, charmosa como sempre) e Anna Kendrick (uma indicação de melhor atriz coadjuvante não seria surpresa), o filme traz um George Clooney em estado de graça.

Completamente à vontade no papel do coroa sedutor e "bem resolvido", Clooney ganha, com a direção arrojada e roteiro agridoce do filme, carta branca para desfilar suas inúmeras qualidades. Com a naturalidade dos grandes, o ator cativa o público a cada passagem, levando os espectadores não apenas a observarem, mas sentirem profundamente as transformações na vida de seu personagem.


A história é muito mais complexa do que se apresenta nas sinopses que você lê por aí:

"Ryan Bingham tem por função viajar pelo país e demitir pessoas. Ele está muito feliz com seu trabalho, até que seu chefe contrata uma nova funcionária jovem e arrogante, que põe em risco seu emprego. Ele passa então a tentar convencê-la do grande erro que é o programa, viajando com ela para mostrar a realidade de seu trabalho".

Bah, isso é tão esdrúxulo e minimalista quanto dizer que Senhor dos Anéis é a saga de um hobbit para destruir um anel maligno que está prestes a acabar com tudo que é bom no planeta. Ora!

"Amor sem Escalas" (urgh!) é um filme de camadas. Com a recente crise norte-americana como toalha de mesa, ele vai oferecendo, ao longo de suas quase duas horas, pratos variados e extremamente apetitosos. Temos aqui as relações sem comprometimento, as famílias desestruturadas, a total despersonalização das relações causadas pelo uso desmedido da internet, a dificuldade em aceitar uma demissão, o individualismo da sociedade norte-americana e um pout-pourri de desilusões causadas por falsas expectativas criadas.


Ryan Bingham, que além de trabalhar demitindo funcionários viaja pelo país dando palestras que ensinam "como esvaziar sua mala e tornar sua vida mais leve, prática e feliz", é o retrato do homem moderno. Qualificado, vaidoso, competente, cool. Mas com imensas dificuldades de criar raízes e se ligar a pessoas, por puro medo de perdê-las e se magoar. O descaso de Ryan com sua casa (que mais parece um quarto de hotel) é tão grande que ele passa apenas 42 dias por ano nela; sua indiferença em relação à família é tamanha que ele nem sequer conhece o novo cunhado, que está prestes a se casar com a irmã caçula.

Já Alex Goran (Vera Farmiga) simboliza a mulher do século XXI. Auto-proclamada um Ryan Bingham de vagina, ela topa de cara um romance cama, laptop e banho, com uma independência e auto-suficiência que deixam Bingham - e qualquer espectador (de pinto) assustado. Afinal de contas, qual homem não deseja das profundezas de sua alma que a mulher seja carente, afetuosa e submissa?

É com um espelho feminino que Ryan se dá conta de que, no fundo, é muito mais legal ir a viagens - e festas de família - acompanhado. E é na fragilidade emocional da nova funcionária (Anna Kendrick) que ele vê desperto seu empoeirado instinto paternal, eclipsado por seu estilo de vida prático e desancorado.


Não poderia deixar de citar aqui o belo trabalho de Jason Reitman, tranquilamente o diretor mais lúcido de Hollywood. Assim como em "Obrigado por Fumar" e "Juno", Reitman transborda frescor e naturalidade tanto na direção do elenco quanto no roteiro, seguramente o próximo vencedor da categoria de Melhor Roteiro Adaptado (do livro de Walter Kim).

Os diálogos do filme são simplesmente deliciosos, cada fala tem uma razão de ser. A trilha sonora embala suavemente o desenvolvimento do enredo, indo das nuvens ao fundo do poço de forma concisa e oportunamente velada.

Algumas passagens beiram a perfeição, justamente por tratarem de forma tão honesta as imperfeições da vida. E no centro de cada uma delas lá está George Clooney: lindíssimo, experiente, seguro, e surpresa: imperfeito. Como toda vida (real) deve ser.



Trailerz:








25/01/2010

São Paulo com todas as cores



NÃO MORRO DE AMORES por São Paulo, e também não vou com a fuça do Washington Olivetto - não me perguntem porquê. Maaaaaaassss, como nem tudo que pula é canguru, me rendi a esse sincero - e não tão novo - texto/depoimento sobre a cidade que não dorme.

"Alguns dos meus queridos amigos cariocas têm mania de achar São Paulo parecida com Nova York. Discordo deles. Só acha São Paulo parecida com Nova York quem não conhece bem a cidade. Ou melhor, quem a conhece superficialmente e imagina que São Paulo seja apenas uma imensa Rua Oscar Freire.


Na verdade, o grande fascínio de São Paulo é parecer-se com muitas cidades ao mesmo tempo e, por isso mesmo, não se parecer com nenhuma.


São Paulo, entre muitas outras parecenças, se parece com Tóquio, no bairro da Liberdade. Se parece com Roma, ao lado do Teatro Municipal, se parece com Nova York no Ibirapuera, se parece com Nova York no prédio do Banespa, se parece com Paris no Ipiranga, se parece com Salvador na estação do Brás, se parece com Chicago na Marginal Pinheiros. São Paulo se parece com Munique em Santo Amaro, Lisboa no Pari, com o Soho londrino na Vila Madalena e com a pernambucana Olinda na Freguesia do Ó.

São Paulo é um somatório de qualidades e defeitos, alegrias e tristezas, festejos e tragédias. Tem hotéis de luxo como o Fasano, o Emiliano e o L'Hotel, mas também tem gente dormindo debaixo das pontes. Tem o deslumbrante pôr-do-sol do Alto de Pinheiros, e a exuberante vegetação da Cantareira, mas também tem o ar mais poluído do país. Promove shows dos Rolling Stones e do U2, mas também promove acidentes como o da cratera do metrô e o do avião da TAM em Congonhas.


São Paulo é sempre surpreendente.


Um grupo de meia dúzia de paulistanos significa um italiano, um japonês, um baiano, um chinês, um curitibano e um alemão. São Paulo é realmente curiosa. Por exemplo: têm diversos grandes times de futebol, sendo que um deles leva o nome da própria cidade e recebeu o apelido 'o mais querido'. Mas, na verdade, o maior e o mais querido é o Corinthians (há controvérsias), que tem nome inglês, fica perto da Portuguesa e foi fundado por italianos, igualzinho ao seu inimigo de estimação, o Palmeiras.

São Paulo já foi chamada de 'o túmulo do samba' por Vinicius de Moraes, coisa que Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini e Germano Mathias provaram não ser verdade, e, apesar da deselegância discreta de suas meninas, corretamente constatada por Caetano Veloso, produziu chiques como Dener Pamplona de Abreu e Gloria Kalil.




Em São Paulo se faz pizzas melhores que as de Nápoles, sushis melhores que os de Tóquio.


Lagareiras melhores que as de Lisboa e pastéis de feira melhores que os de Paris - até porque em Paris não existem pastéis, muito menos os de feira. Tem ótimos restaurantes, de categoria internacional, como o maravilhoso Terraço Italia, localizado no 44º andar do edifico Italia.

São Paulo teve o bom senso de imitar os botequins cariocas, e agora são os cariocas que andam fazendo as suas imitações paulistanas. São Paulo teve o mau senso de ser a primeira cidade brasileira a importar a CowParade, uma colonizada e pavorosa manifestação de subarte urbana, e agora o Rio faz o mesmo. São Paulo se poluiu visualmente com a CowParade, mas se despoluiu com o Projeto Cidade Limpa. Agora tem de começar urgentemente a despoluir o Tietê para valer, coisa que os ingleses já provaram ser perfeitamente possível com o Tâmisa.

Mesmo despoluindo o Tietê, mantendo a cidade limpa, purificando o ar, organizando o mobiliário urbano, regulamentando os projetos arquitetônicos, diminuindo as invasões sonoras e melhorando o tráfego, São Paulo jamais será uma cidade belíssima. Porque a beleza de São Paulo não é fruto da mãe natureza, é fruto do trabalho do homem.




São Paulo tem o maior centro de exposições da America do Sul, O Anhembi.


São Paulo tem o segundo maior Terminal Rodoviário do mundo, perdendo apenas para o Terminal Rodoviário de Nova York. Em seu interior há um Shopping Center. São Paulo é o maior centro de compras do Brasil, e também o maior Centro Cultural do País. A cidade tem mais de 120 teatros e casas de show, 71 museus e 11 Centro Culturais, como a Bienal do Livro, o Centro Cultural São Paulo, o Centro Cultural do Banco do Brasil, o Centro Cultural do Banco Itau, o Centro Cultural de Israel e outros.

E ainda na cultura, podemos citar o carnaval de São Paulo, que é o segundo melhor do País, perdendo apenas para o carnaval do Rio de Janeiro. É tambem em São Paulo que estão as melhores rodovias do Brasil, semelhantes às autopistas da Europa.



Reside, principalmente, nas inúmeras oportunidades que a cidade oferece, no clima de excitação permanente, a mescla de raças e classes sociais. São Paulo é a cidade em que a democratização da beleza, fenômeno gerado pela miscigenação, melhor se manifesta. São Paulo é uma cidade em que o corpo e as mãos do homem trabalharam direitinho, coisa que se reconhece observando as meninas que circulam pelas ruas.

E se confirma analisando obras como o Pátio do Colégio (local de fundação da cidade), a Estação da Luz - onde hoje fica o Museu da Língua Portuguesa - o Mosteiro de São Bento, a Oca, no Parque do Ibirapuera, o Terraço Itália, a Avenida Paulista, o Sesc Pompéia, o palacete Vila Penteado, o MASP, o Memorial da América Latina, a Santa Casa de Misericórdia, a Pinacoteca e mais uma infinidade de lugares desta cidade que não pode parar, até porque tem mais carros do que estacionamentos.


São Paulo não é geograficamente linda, não tem mares azuis, areias brancas nem montanhas recortadas.


Nossa surfista mais famosa é a Bruna, e nossos alpinistas, na maioria, são sociais. Mas, mesmo se levarmos o julgamento para o quesito das belezas naturais, São Paulo se dá mundialmente muito bem por uma razão tecnicamente comprovada.



Entre as maiores cidades do mundo, como Tóquio, Nova York e Cidade do México, em matéria de proximidade da beleza, São Paulo é, disparado, a melhor. Porque é a única que fica a apenas 45 minutos de vôo do Rio de Janeiro. E o mais importante: com essa distância nenhuma bala perdida pode alcançar São Paulo!"





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