31 de out de 2008

Prato do Dia



Coca-cola 3 litros acompanha.






29 de out de 2008

Vale a pena ler de novo: Os inimigos da verdade


Os Inimigos da Verdade
(Martha Medeiros*)


ACABO DE LER um livro espetacular, Quando Nietzsche Chorou, de Irvin Yalom, que narra, em forma romance de ficção, o nascimento da psicanálise. É uma leitura inquietante e ao mesmo tempo acessível, que tem como personagem principal um dos maiores filósofos do século 19. Entre tantas frases geniais, escolhi e comento uma:

"Os inimigos da verdade não são as mentiras, mas as convicções"

Realmente. Nossas convicções é que impedem que a verdade se estabeleça em nossas vidas, são as convicções que nos aprisionam, nos limitam e nos segmentam por grupos, impedindo que a gente desenvolva nossa singularidade.

O amor é eterno: verdade ou mentira?
O amor acaba: verdade ou mentira? São convicções que só podem ser comprovadas quando vivenciadas, e podem ser vivenciadas tanto uma coisa quanto a outra: amores finitos e infinitos. Costumamos teorizar sobre o assunto, mas nossas conclusões são meros chutes, pois os amores não simpatizam nem um pouco com estatísticas e enquadramentos, cada amor é de um jeito.

E seguimos nós: não sou mulher disso, não sou homem daquilo, nasci para ser mãe, não nasci para casar, eu me garanto, eu sei de tudo, aquele ali não presta, aquela outra não vale nada, só quem dá duro é que vence na vida, só os trouxas é que se matam trabalhando, não preciso de terapia, não vivo sem terapia, nasci para brilhar, tudo dá errado pra mim: e todos têm certeza do que estão dizendo - certeza absoluta.

Alguém lá tem certeza do que quer que seja?
Somos todos novatos na vida, cada dia é uma incógnita, podemos ser surpreendidos pelas nossas próprias reações, repensamos mil vezes sobre os mais diversos temas: as ditas "certezas" são apenas escudos que nos protegem de certas mudanças. Mudar é difícil. Crescer é penoso. Olhar para dentro de si mesmo, profundamente, é perturbador.

Não somos todos iguais como damos a entender. Mas vivemos todos de um jeito muito parecido. É mais fácil se manter integrado, é mais seguro saber direitinho quem se é e o que se quer da vida. Eu nunca vou fazer isso, eu jamais terei coragem de fazer aquilo: será mesmo?

Quanto medo das nossas capacidades.
Melhor adotar meia dúzia de convicções, assim fica mais fácil de manter o rumo. Que pode ser o rumo da verdade, mas também da mentira.


* Martha Medeiros é gaúcha arretada, escritora caprichosa, poeta sensível, colunista dos jornais Zero Hora e O Globo e uma das maiores filósofas da crônica moderna. Esse texto foi retirado do livro 'Montanha Russa', uma fabulosa coletânea de crônicas publicadas pela autora entre 2001 e 2003.





27 de out de 2008

Querida, voltei!

ELE VOLTOU. Depois do Batman, Jason, Freddy e do Mc Salad Bacon, chegou a vez do Sport Club Corinthians Paulista ressurgir do limbo e, 11 meses depois de beijar a lona, voltar ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

Surpreendentemente, a volta do time foi tranqüila. Os corintianos, que estão acostumados a conquistar suas vitórias no fio do bigode ('corintiano, maloqueiro e sofredor, graças a Deus'), dessa vez viram seu time vencer a batalha 7 rounds antes do gongo final.

O crédito pela façanha pode ser debitado em várias contas, e é delas que quero falar com você, corintiano religioso que ao longo do ano foi motivo de piadinhas infames e acompanhou o clube lado a lado nessa peregrinação pelos gramados esburacados do 'Brasil B'.

Mano Menezes
Como o bandeirão aberto nas arquibancadas a cada partida do Timão, o sisudo treinador gaúcho definitivamente caiu nos braços da Fiel. O nome já era um presságio, nénão Mano? Com um elenco mediano, soube recomeçar do zero e montar um time compacto e ofensivo, com padrão de jogo e personalidade. Se não for para o exterior ano que vem, renovará por mais um par de anos e comandará o time em seu esperado centenário. Eu ouvi Libertadores?

O comandante do retorno: É nóis, Mano!

William e Chicão
A melhor dupla de zaga corintiana desde os intransponíveis Anderson e Fábio Luciano, William e Chicão chegaram para arrumar de vez a até então esburacada cozinha alvi-negra. O 1º com sua liderança em campo, excelente cabeceio e ótima postura defensiva; o 2º com sua vibração, entrega e desenvoltura na área adversária (Chicão fez mais de uma dúzia de gols no ano, e só fica atrás de Dentinho, Herrera e André Santos na artilharia do time). A dupla mandou tão bem que mal ouvimos falar o nome de Felipe esse ano.

Chicão comemora mais um: zagueiro artilheiro/Agência Estado

André Santos e Douglas
O lateral esquerdo e o meia são os cérebros do time. Bons na corrida, no drible e no arremate, André e Douglas deram o toque de classe que passou longe do Parque São Jorge em 2007. O camisa 6 há muito tempo faz por merecer um lugar na seleção do anão (é tão bom quanto o flamenguista Juan e infinitamente melhor que o santista Kléber). Douglas chegou pianinho, pegou a batuta e tocou a orquestra como um autêntico maestro, lembrando muito o Alex que brilhou no Cruzeiro e no rival do Parque Antártica. Em alta com a torcida e com o mercado, a dupla lidera a bolsa de apostas para deixar o clube em 2009.

Douglas e Dentinho comemoram o acesso/globoesporte.com


Dentinho e Herrera
Enquanto Lulinha despertava expectativas como o craque de R$ 30 milhões da seleção sub-18, Dentinho era apenas mais uma boa promessa que pintava no terrão de Itaquera. O tempo e a bola acabaram invertendo os papéis: o festejado Lulinha acabou esquentando o banco de reservas, e o dentucinho juvenil se tornou peça fundamental no ataque do time, com gols e assistências preciosas ao longo do ano. Quanto a Herrera... Dizer que o argentino passou de patinho-feio-quase-catapultado a xodó da Fiel de 4 milhões de dólares tá bom pra você?

Herrera, o símbolo da raça corintiana/Uol


O 12º jogador...
Mais uma vez a Fiel Torcida não parou, não parou e não parou. Neste ano, faixas e camisas com a inscrição 'Nunca vou te abandonar' foram vistas por toda a cidade, os inúmeros gritos apaixonados ecoaram das janelas das casas e carros e as lágrimas alvi-negras banharam as cadeiras, arquibancadas e tobogãs Pacaembu afora. Um show à parte da torcida mais fanática do Brasil, capaz de incendiar o time nas situações mais adversas, fazer tremer o desafiante mais robusto e de emocionar até torcedores de seus arqui-rivais.

O talismã alvi-negro: Pacaembu lotado em todas as rodadas


Senhoras e senhores, é com muito orgulho e satisfação que abro as portas da frente e faço uma reverência para o retorno do gigante que caiu, bateu os pés no lodo e soube se reerguer à sua maneira: com muita luta, raça e suor. O Coringão voltou!






23 de out de 2008

Os Druidas do gol

ELES SÃO OS RESPONSÁVEIS por um terço dos gols de seus times, pelos pesadelos dos goleiros sem fé, por inflamar a torcida nas arquibancadas, sofás e poltronas desse Brasilzão peladeiro. Juntos, somam mais de 2 mil gols e 138 anos de idade. Não sabe de quem estou falando? Uma breve espiada na tabela de artilheiros das séries A e B soluciona o caso.

Kléber Pereira, Washington Coração de Leão, Alex Mineiro e Túlio Maravilha são hoje os maiores artilheiros do Brasil. Mesmo já tendo passado dos 30 há muitos carnavais, seguem exercendo seu ofício com classe e brilhantismo, deixando para trás recém-saídos do Neston como o cruzeirense Guilherme, o coritibano Keirrisson e o colorado Nilmar.

Você sabe de onde vem tanta inspiração e talento para executar o único gesto não-copular que traz à tona alegria, emoção, adrenalina e lágrimas dos torcedores apaixonados? Então sobe aí na garupa e conheça um pouco mais da trajetória dos druidas do gol.


ALEX MINEIRO

Nome: Alexander Pereira Cardoso
Idade: 33 anos
Terra Natal: Belo Horizonte (MG)
Clubes que já defendeu: América MG, Cruzeiro, Vitória, Tigres Nuevo Leon (México), Atlético MG, Atlético PR e Kashima Antlers (Japão).
Clube atual: Palmeiras
Gols na carreira: aproximadamente 500 gols (na faixa dos 480)


Dizem que ele é a cara do...



WASHINGTON

Nome: Washington Stecanela Cerqueira
Idade: 33 anos
Terra Natal: Brasília (DF)
Clubes que já defendeu: Brasília, Caxias, Internacional, Grêmio, Ponte Preta, Paraná Clube, Fenerbahçe (Turquia), Atlético PR, Verdy Tóquio e Urawa Reds (ambos do Japão).
Clube atual: Fluminense
Gols na carreira: aproximadamente 400 gols (na faixa dos 390)


Dizem que em alguns momentos ele lembra o...


TÚLIO MARAVILHA

Nome: Túlio Humberto Pereira da Costa
Idade: 39 anos
Terra Natal: Goiânia (GO)
Clubes que já defendeu: Goiás, Sion (França), Botafogo, Corinthians, Vitória, Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Vila Nova, São Caetano, Santa Cruz, Ujpest (Hungria), Brasiliense, Atlético Goianiense, Tupy (MG), Jorge Wilstermann (Bolívia), Anapolina, Volta Redonda, Juventude, Fast Club, Canadense e Itauçuense.
Clube atual: Vila Nova
Gols na carreira: 858 gols (prometeu só encerrar a carreira após o milésimo)

Dizem que no começo da carreira, ele era igualzinho o...


KLÉBER PEREIRA

Nome: Kléber João Boas Pereira
Idade: 33 anos
Terra Natal: Peri Mirim (MA)
Clubes que já defendeu: Moto Clube São Luís, Náutico, Sion (Suíça), Atlético PR, Tigres, Veracruz, Club América, Necaxa (os quatro do México).
Clube atual: Santos
Gols na carreira: aproximadamente 300 gols (um pouco mais, um pouco menos).

Em todos os jogos, Kléber agradece aos céus...



... pelos gols e pelo 1º lugar nas paradas!








22 de out de 2008

Requentar é viver: Pegar, Ficar, Juntar


OLHAR CRUZADO, sorriso disfarçado, beijo roubado, anel trocado. Desde o dia em que Angelina Jolie e Brad Pitt fizeram sua primeira aparição no cinema, o mundo já sabia que o script das histórias de amor estaria para sempre condenado ao acaso. Ou, mais pitagoricamente, à satisfação de seu desejo imediato.

Dizer que as coisas não são mais como no tempo romântico de papai e mamãe e quase platônico de vovô e vovó é dar leite pra vaca beber. Nos tempos em que os penteados e binóculos do 'É namoro ou amizade' deram lugar aos beijos cabulosos da dupla 'Fica Comigo'/'Beija Sapo', a frase que abriu esse texto fica cada vez mais restrita às músicas sertanejas e aos filmes de Meg Ryan.

Hoje não se flerta, se pega. Sorrisinhos besta? Só se for com a linguinha roçando o lábio. Bilhetinhos amorosos? Passa amanhã! Ah, e sem essa de pedir o orkut/msn, porque o que conta aqui é a-ti-tu-de. Arroubos de romantismo barato, como mensagens de telefone gravadas, serenatas desafinadas e faixa na porta de casa pedindo desculpas por ser um babaca? Larga de ser cafona, né bem?

É por essas e outras que as meninas e meninos que já podem entrar na balada sem mostrar o RG - e ainda não precisam acordar cedo para ir ao banheiro - criaram novas categorias de relacionamento. Para levarem sua vida intensa, desprendida e regrada à base de mensagens de celular, scraps e toques polifônicos.


PEGAR
Pegar é o jeito mais simples de se roçar travar contato físico. Consiste em trocar meia dúzia de palavras, conseguir o sorriso de aprovação e tascar o beijão desentupidor de pia. Como as meninas - inspiradas em serelepes porra-louquinhas como Britney, Lindsay, Amy e Paris - já partiram para o vale-tudo, em boa parte das situações são elas que pegam. Se você já foi pego(a), parabéns: você é um peguete.

FICAR
Ficar está ali, na avenida que separa as calçadas 'pegar' e 'namorar'. É mais que um simples beijo de ocasião, e menos que usar a mesma escova de dentes, levar o cachorro dela pra passear ou buscar a irmãzinha dele no bailinho do prédio (sim, eles ainda existem!). Pode envolver sexo ou não, o que depende da flexibilidade da garota - normalmente associada à pegada ao grau de confiabilidade do rapaz. Quando o seu rolo liga, o coração não chega a disparar, mas ele provavelmente já ganhou seu toque personalizado. Se você se enquadra nessa categoria, você é um ficante.

JUNTAR
Juntar foi a solução encontrada para quem quer mais que a terceira marcha do namoro, e menos que a quinta do casamento. Não precisa assinar papel, trocar alianças e nem passar por aquele perrengue todo da cerimônia, com o indigesto 'até que a morte os separe', olhares desconfiados dos sogros e tudo o mais. E a melhor parte: você pode acordar ao lado do tchuco ou da tetéia todos os dias, vê-la tomar banho e ajudá-lo a arrumar a gravata. Até onde sei, o esquema de Brad e Angelina é assim (ao menos em 'Sr. e Sra. Smith'). Se o seu também é, você tem um parceiro, ou uma companheira. Meio impessoal, né?


É claro que tem também os que namoram, casam e curtem um lance de flores, bombons e domingão família. Afinal de contas, o varejo precisa manter o duelo com o atacado.






17 de out de 2008

Um sorriso moleca de ser

ONTEM, PERTO DO fim do dia, resolvi terminá-lo de maneira alegre e descontraída e optei por uma comédia romântica para dar frescor à vida: Minha mãe quer que eu case, com Diane Keaton e Mandy Moore. O resto do elenco não vem ao caso.

O filme conta a história de uma mãe que procura um namorado para a filha, para evitar que a mocinha não sofra as mesmas frustrações amorosas que teve, bem como a solidão que rodeou boa parte da vida da personagem da Sra. Keaton, vulgo mãe da garota em questão (a pequena Mandy).

A propaganda feita pela coroa foi tamanha que rapidamente me rendi aos encantos da doce Mandy, e passei a procurar a senha para garantir meu lugar na fila do coração da personagem (isso é o que chamo de entrar no filme).

Analisei minuciosamente, perdi a conexão com o roteiro e foquei somente na carne, na forma, nas linhas e traços de uma beleza não muito estonteante num primeiro impacto, mas que no segundo momento se torna a melhor de todas as belezas: cativa ao longo dos segundos, minutos, dias ou qualquer forma de mensuração temporal. O brilho simplesmente desabrocha, cresce, arromba a porta da frente, devasta!

No fim das contas, reparei num aspecto examinado com pouca perícia pela minha pessoa até então: o sorriso. Uma característica que muitas vezes passa despercebida por conta de outros dotes (naturais ou não), como bundas e seios. O sorriso tem um efeito atmosférico incrível, já reparou? É apaixonante e abstrato ao mesmo tempo, pois não se percebe onde ele leva - só me encontro quando lá estou: aéreo, distante, eterno...

Procurando o segredo do feitiço durante os 90 e poucos minutos de película, encontrei muito mais que a gostosura machista que todo homem fareja ao virar o pescoço num lugar público quando passa uma boa chuleta. Mandy Moore, independente das virtudes que carrega, me ensinou que um sorriso moleca de ser só faz bem, enaltece a pessoa e causa, nos espectadores, efeitos em progressão geométrica.

Mulheres e sua complexidade... Obrigado, Mandy!!!

(E Mandy, querida, se quiser um homem com V maiúsculo, sabe onde encontrar o dom Vince aqui.)





16 de out de 2008

A Escolinha do Professor Maquiavel


SUPERE AS EXPECTATIVAS. Surpreenda, vá além, vença seus limites e limitações. Na festa à fantasia da auto-ajuda multi-travestida em que vivemos, mensagens de trangressão e superação transbordam pela boca de todos os personagens. Você precisa enfrentar seus fantasmas e romper barreiras para ser, crescer, aparecer e encostar a cabeça no travesseiro sem se sentir o mosquito do cocô do cavalo do bandido.

Até aí, ok. Não só estou de acordo com as batalhas da auto-estima como apóio a leitura de boa parte dessas literaturas - afinal de contas, não se vence o monstro sem olhar debaixo da cama. Acontece que, nessa de superar os limites, muita gente, em nome de seus objetivos e fins, acaba deflorando a privacidade do outro.

Na semana passada, 3 exemplos chamaram a minha atenção - e talvez a sua, pois foram oportunamente explorados pela imprensa.

Na terra de Rocky Balboa, a pugilista-pit bull Sarah Palin, vice do republicano John McCainn, se aventurou a falar das particularidades de Barack Obama. Ácida e contida como um orc, deixou a política e a diplomacia de lado e usou toda sua desenvoltura para atacar o jeito de ser e as origens do oponente democrata. McCainn foi na onda e declarou, na véspera do debate na tevê, que iria chicotear o adversário no programa. Bonito, não?

Ao invés de ir na contramão do péssimo exemplo americano, Marta Suplicy e a equipe do Partido dos Trabalhadores paulista usou da mesma tática sórdida para encostar o adversário Gilberto Kassab nas cordas.

"Você sabe quem é Kassab?"
"Sabe com quem ele anda?"
"Sabe se ele é casado, se tem filhos?"

A estratégia foi tão infeliz que a petista se viu na saia-justa de ter de se justificar para a imprensa e o público GLS que até então a apoiava entusiasticamante, e poucos dias depois a campanha se viu obrigada a mudar de foco.

E foi justamente uma das passeatas de Marta e seu staff o palco da terceira 'transposição de barreiras'. A equipe do CQC, um Pânico com QI turbinado que bota na mesma panela jornalismo, humor e entretenimento, tentou entrevistar a candidata. O repórter enviado, trajado do habitual terno preto, óculos escuros e com um manequim no colo, tentava tirar uma casquinha da petista - dias antes, Marta cordialmente estendeu a mão para cumprimentar um manequim na porta de uma loja.

Os seguranças interpelaram o repórter de forma violenta e agressiva, e não o deixaram se aproximar de seu objeto de desejo. Revoltado com a falta de profissionalismo da equipe petista, o rapaz mostrou todo seu bom senso e gentilmente jogou seu microfone na cara do fotógrafo que acompanhava a procissão. Justo, né?

Não é fácil sair do lugar comum, inovar e ir além. A inércia quase sempre fala mais alto, e toda mudança assusta os marinheiros de primeira, segunda, terceira e centésima viagem. Mas se o preço para superar os limites for utilizar o método Custe o Que Custar, estaremos jogando no lixo décadas de progressos sociais e intelectuais para voltar à empoeirada cartilha de Maquiavel.

Enquanto isso, nos porões da indústria da auto-ajuda, os druidas da virtude esfregam as mãos e preparam, no capricho, sua mais nova fornada de bengalas.





15 de out de 2008

Profissão Perigo - Ascensorista de Elevador

A EVOLUÇÃO DOS animais nos fez bípedes, trocou a cauda por um discreto ossinho no cox, nos deu visão multicolor e uma temperatura corporal constante - esta última imprescindível para não virarmos uma banana flambada no Saara ou um tartufo no Alasca (tá, vai, a chance de ir a esses lugares é ínfima, mas vale a comparação).

Porém, a teoria-lei do vovô Darwin esqueceu de levar consigo alguns 'apetrechos', que - não bastasse sua inutilidade - ainda por cima causam transtorno e uma dorzinha deveras incômoda. Quem aí não passou intermináveis minutos de apuros na cadeira do dentista para tirar os benditos dentes do ciso? Ou pior: teve seu momento 'Albergue', naquela cabulosa salinha de operação para arrancar o apêndice?

Isso sem falar nos pentelhos, que elegem alguns premiados para nascerem em profusão e torná-los atração de circo, motivo de chacota na galera, de enrosco no dente ou vítimas da cera quente. Este, aliás, um artifício muito mais doloroso que útil, já que após uma semana o cidadão fica parecendo um porco espinho emperebado.

Toda essa lenga-lenga é para falar das profissões que, mesmo com o avanço da sociedade, da tecnologia e do sistema de rodízio de pizza, seguem firme em seu propósito, assim como os cabelos que insistem em povoar algumas busanfas nádegas.

Como tenho sérios problemas com lugares fechados e apertados, resolvi começar com o ofício que me dá calafrios só de olhar para a imagem acima: o de ascensorista de elevador. Existe profissão mais infeliz que a de ascensorista de elevador?

Além de trajar um uniforme ri--cu-lo, o coitado(a) tem que ficar o dia todo preso na caixinha, subindo e descendo e dando bom dia, boa tarde e boa noite para cada um que entra. Sem contar os desgraçados que, nos poucos segundos que ali permanecem, deixam uma bufa lembrança no ar que fica enclausurada, mudando de aroma ao sabor do movimento vertical. E pra descobrir quem foi?

Dependendo do estabelecimento, o ascensorista pode ser mais desencanado. Nos prédios povoados por consultórios médicos, por exemplo, é comum vê-los discretamente uniformizados, sentadinhos naquela tábua reclinável, alternando o toque dos botões com a leitura de um livro (auto-ajuda e espíritas são os mais pedidos). Esses normalmente dispensam o 'boa tarde', e parecem estar ali improvisados, só para quebrar o galho do colega que se ausentou.

Até para ser ascensorista de elevador é preciso ter cacoete.

Como temos o dom de nos adaptarmos até às situações mais indigestas, creio que a pior parte do distinto serviço não é a clausura, tampouco a trilha sonora bocejante, as conversas profundas sobre o tempo e os flatos amaldiçoados. O que deve deixar os ascensoristas decepcionados é que, ao contrário dos garçons, entregadores de pizza, ajudantes de caixa de supermercado e carregadores de mala, eles não recebem uma gorjetinha sequer.

Afinal, quem diabos vai dar gorjeta por ir do térreo ao quinto andar? Ao menos as viagens mais longas, que vão do 3º sub-solo ao 20º andar poderiam render uma moedinha, quem sabe... Talvez se o 'piloto' fizer o trajeto sem paradas, economizando uns... 30 segundos do passageiro?

É, não tem jeito mesmo. Sugiro ao sindicato dos ascensoristas de elevador uma reivindicação diante do governo e da sociedade. Esses mal-agradecidos que mal os olham nos olhos, preferindo a companhia do espelho a uma prosinha à toa, que pode render informações preciosas sobre o chefe ou aquela secretária gost... interessante do 12º andar.


SOBEEEEEE!!!





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