20 de jan de 2008

Memórias do litoral


HUMANO É UM bicho engraçado. Especialmente aqueles que moram no Brasil. Do meio pra baixo. Os que vivem na capital paulista, então, nem se fala. Vivem reclamando do trânsito, da correria, da falta de tempo pra comer e bater papo, das filas no banco, no supermercado, na balada, no cinema.

Aí, quando têm a oportunidade de se livrar do futum cotidiano e relaxar no mês de férias, fazem o quê? Se abarrotam no metro quadrado onde instalam seu guarda-sol. E é bom que ele seja em formato de golfinho, fosforescente ou que tenha o desenho do Bob Esponja - senão, a chance de encontrá-lo após o banho de mar é tão grande quanto achar o carro no estacionamento do shopping quando você, pra variar, esqueceu de decorar a latitude e a longitude da bendita vaga.

E por falar em banho de mar, já reparou como o do litoral sul é curioso? Dizem que o mar é profundo, imprevisível e guarda uma porção de segredos lá no fundo. Nesse caso, os 'segredos', quando não estão boiando, ficam ali no rasinho mesmo, grudados na areia. É o Kinder ovo do tio Netuno: a cada passo em direção às ondas, uma surpresa. Embalagens de sorvete, tampa de garrafa, saco plástico e seres pegajosos que te fazem agradecer o fato de não poder enxergar o fundo. Coidelôco!

De volta à sombrinha sagrada, você repara, ao mirá-la à distância e compará-la com as vizinhas, em toda sua insignificância. Pois é, não teve jeito - a mania de grandeza do paulistano desceu a serra. Agora quem dá A sombra são barracas ostentosas, tendas arabian style que formam lotes de oásis povoados por famílias-buscapé que vêm de todos os cantos.

Em comum, elas trazem aquela meia dúzia de personagens onipresentes: a vovó de maiô e chapéu de palha com suas palavras-cruzadas; o tio calvo, peludo e pançudo que controla o fluxo de cervejas do cooler; a prima adolescente, de bruços na esteira, caprichando na marquinha do biquíni e olhando disfarçadamente a rapaziada que joga bola; o pai, que após guardar as raquetes de frescobol pega o cardápio para escolher o petisco que acompanha a gelada; e a mãe, que enquanto pensa na panela de feijão apitando na cozinha retoca o protetor solar do caçula que se acaba em sua piscininha particular. O time completo!

E o que falar das lan-houses litorâneas, sempre lotadas até o tubo? Depois de se livrar da areia que insiste em procurar abrigo nos locais mais inusitados - e inconvenientes - dos países baixos, de dar aquela passada na sorveteria por quilo (onde só falta colocarem danoninho de acompanhamento) e de passear na feirinha de 'artesanato' local, é hora de entrar naquela caverna com ar-condicionado para ver o email, os recadinhos no orkut, e claro: teclar com a galera online, para contar as últimas peripécias praianas e fazer inveja para os caretas e peões que não quiseram/puderam sair de Sampa.

Na volta para casa, aquele trânsito infernal que faz a festa dos vendedores de bananinha e biscoito de polvilho, o silêncio que toma conta do carro enquanto cada um vasculha seu universo particular, e a lembrança daquele sorriso que ganhou de passagem quando andava na beira do mar, gosto de sal na boca, um chinelo em cada mão e o peito cheio de esperanças de um ano ensolarado, como o fim de tarde que se desfaz às suas costas.

"Raspadinha boa é aquela do carrinho de madeira velho, que vem com as garrafas coloridas balangando ao sol. Com leite condensado duplo."


3 comentários:

Feitoca disse...

SENSACIONAL!!!!!!!

Bran disse...

E os Teletubbies vendedores de algodão doce???????

Jo-jo disse...

Malditas tendas arabian style. Ocupam metade da praia!!!

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