2 de ago de 2008

Vale a pena ler de novo: Organizando o crime



Excedente de caixa
(Ruy Castro - Folha de S.Paulo)


HÁ POUCO TEMPO, alguém mais mais esperto dentro do crime organizado olhou em volta e descobriu que, se quisesse de fato fazer jus ao nome, o crime deveria tomar providências e deixar de ser um bando de pés-de-chinelo que só se sustentava pela omissão e incompetência do poder público.

Uma constatação foi a de que, mesmo com os pesados investimentos em armas e manutenção, o crime tem sempre excedente de caixa, por não precisar gastar dinheiro com itens que flagelam outros setores. Por exemplo, a frase de Benjamin Franklin de que só há duas coisas inevitáveis: morte e impostos. No crime, só a morte é inevitável.

Pelo mesmo motivo, o gasto do crime com encargos sociais é zero: seus funcionários não têm carteira assinada, nem descontam para o instituto, porque a maioria morre antes da aposentadoria. O crime também não tem despesas de escritório, tipo clipes, selos e papel timbrado, nem com aluguel, porque suas instalações no morro são, digamos, cedidas pela população. E gatilhos (nos dois sentidos) lhe garantem água, luz e gás.

Resta o suborno a policiais, advogados, juízes, políticos e testemunhas. Isso sim é uma hemorragia. Ninguém sabe ao certo a dinheirama que vai nessas operações. E apenas porque, para contar com tais serviçoes especializados, o crime depende de terceiros. Daí que, pensou o sujeito, o crime deveria se organizar para produzir seus próprios quadros.

Uma reserva de jovens seria poupada do trabalho sujo, como a venda nas bocas-de-fumo, a campana nas encostas ou os confrontos com a polícia. Em vez disso, eles iriam estudar, formar-se em direito, galgar cargos no Judiciário, ingressar nos partidos, disputar eleições. Enfim, infiltrar-se no Sistema.

Absurdo? Pois não olhe agora, mas acho que isso já começou.




* O 'Vale a pena ler de novo' é um espaço para textos republicados e nada republicanos de jornalistas, articulistas e malabaristas dos mais variados veículos de comunicação. Se não leu o original, aproveite a nêga. Se já leu, come de novo (não é sempre que ela tá com fogo na bacurinha).




3 comentários:

Vince disse...

VIVA DON CORLEONE!!!!!!

BJ disse...

A bruxa está solta.
PEGA!
PEGAAAAAAAA!!!!

Anônimo disse...

Liberdade fotográfica??Foto mais esdrúxula essa!!O texto,meio que é o perfil das estórias de S.Sheldon.
Só meio??D.

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