28 de abr de 2008

O oráculo francês

ASSIM COMO ACONTECE com praticamente todos os bambas de seu nicho midiático - Rede Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, CBN, Uol, Terra -, tenho lá minhas restrições à revista Veja. Além de imparcial e elitista, a revista é tendenciosa, ao publicar centenas de matérias sem ouvir os dois lados da história. Semanalmente, desce o sarrafo no Lula e no PT (faltando muitas vezes com o respeito que é devido a um presidente da República), baba ovo para os americanos e, exceção feita a Millôr Fernandes e Roberto Pompeu de Toledo, enche os patová dos leitores com seus articulistas vazios e insossos.

No entanto, tenho que reconhecer que vez ou outra a revista acerta em cheio. As críticas culturais são pertinentes e bem fundadas, as aspas semanais muito bem captadas e as matérias sobre comportamento muitas vezes surpreendem, como a publicada na edição de 23 de abril (com os Nardoni na capa).

Em entrevista feita com Charles Melman, renomado psicanalista francês, segundo nome na lista de sucessores em potencial de Freud - e a cara do ator Anthony Hopkins -, a revista colheu um depoimento precioso a respeito da atribulada vida da sociedade moderna, da desintegração familiar, da existência virtual e da vazia busca pelo prazer.

A seguir, alguns pontos para refletir. Incrível constatar que, mesmo morando na rica e odorizada Paris, o polido Melman, 76 anos, traduz exatamente o que acontece cinco fusos horários para trás, do outro lado do Atlântico e com um aroma, digamos... peculiar.

ADEUS, FAMÍLIA.

"Pela primeira vez na história a instituição familiar está desaparecendo, e as consequências são imprevisíveis. O papel de autoridade do pai foi definitivamente demolido. Antes, o menino tinha em sua figura um rival e um modelo. Um rival que despertava nele o gosto pela competição e um modelo na busca do prazer sexual. Para a menina, tratava-se de um homem em quem ela procurava se completar. Hoje, com o declínio da figura paterna, nossos jovens estão menos propensos a batalhar pelo sucesso, estabelecer um ideal de vida e até a descobrir o gosto pelo sexo."


JOVENS NO DIVÃ

"Se há uma clientela interessada e engajada na psicanálise hoje em dia, é a dos jovens dos 18 aos 30 anos. Eles não procuram o psicanalista pelo fato de reprimirem seus desejos, mas porque não sabem o que desejam. Isso acontece porque foram criados em condições que promovem a busca rápida do prazer máximo e sem obrigações".


A BUSCA DO PRAZER

"Muitos jovens têm dificuldade para desenvolver plenamente uma vida sexual. Isso parece paradoxal, porque hoje em dia o sexo é muito acessível. Mas, na verdade, essa facilidade leva à busca de uma vida sexual sem compromisso, de prazer ocasional, como o cinema, a bebida e a dança. Há aí talvez uma tentativa de se proteger em relação ao compromisso que uma vida sexual pode evocar. É a busca imediata de prazer máximo, sem freios, sem restrições. Esses momentos de prazer, que proporcionam uma satisfação profunda, são vividos, mas não organizam a existência. Ou seja: a existência é feita de uma sucessão de momentos sem nenhuma projeção no futuro. De momentos que podem desaparecer porque não terão continuidade."


PROZAC X FREUD

"Será que devemos apostar em um procedimento que vai tratar o conjunto dos problemas psíquicos pelas drogas? Ou devemos continuar a levar em conta a livre escolha do sujeito e, em segundo lugar, o próprio papel do corpo? Digamos que surja amanhã uma droga que, agindo sobre os centros cerebrais, produza um prazer sexual bem superior ao que se pode obter com o corpo. O que vamos preferir: isso ou um acesso ao prazer sexual que continua a passar pelo corpo, mesmo não tendo a mesma qualidade do que pode ser proporcionado pela droga que atua diretamente sobre o cérebro?"


A EXISTÊNCIA VIRTUAL

"O mundo virtual proporcionado pela internet faz sucesso por se tratar de um mundo lúdico, coerente com a maneira de viver dos jovens - não exige engajamento nem compromisso. As pessoas querem se distanciar da realidade não porque ela seja assustadora ou sem graça, mas porque ela implica um limite. Além disso, a realidade requer uma identidade, um objetivo de vida. Os exercícios virtuais, pelo contrário, não pressupõem identidade, perspectiva e derrubam todos os limites, incluindo o pudor e a polidez."



8 comentários:

BJ disse...

Grazadeus aqui em casa não tem essa não! A Marion é meio saidinha, mas vai ver é pq é adotada.....

Vickye disse...

Tava concordando com tudo, até chegar na parte do mundo virtual. A internet democratizou a opinião, e não tirou a identidade. Acredito até que, em certos casos, ela devolveu a identidade para muitos anônimos por aí.

Holly disse...

Aaaah, eu não tenho nada contra a Veja. Até gosto das críticas de cinema deles!!

Marion disse...

NÃO SOU ADOTADA! Que coisa horrível de dizer, BJ!

mari abdo disse...

Eu como assinante da Veja tomo cuidado para separar o que é opinião de informação ao ler a revista semanalmente, mas tbm acho que ela acerta mtas vezes. Tbm gostei mto dessa matéria, achei uma pauta mto bem explorada.

Nathália Rodrigues disse...

odeio a vejaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

Nath disse...

Gostando da Veja ou não (eu tbm não gosto mto, xará) acho legal a gente pensar nessa aspas - "Eles não procuram o psicanalista pelo fato de reprimirem seus desejos, mas porque não sabem o que desejam". Ela me assustou um pouco...acho que andamos um pouco perdido demais. Rádio, TV, jornal tudo junto na facul e uma chefe insuportavel no trabalho não faz bem pra ngm...hahahahah

Anônimo disse...

Thanks :)
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